Marialis Cultus - II PARTE - Santo Rosário

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Marialis Cultus - II PARTE

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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
MARIALIS CULTUS
DO SANTO PADRE
PAULO VI
PARA A RETA ORDENAÇÃO
E DESENVOLVIMENTO DO CULTO
À BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA



II PARTE
PARA A RENOVAÇÃO DA PIEDADE MARIANA

24. O mesmo Concílio Vaticano II, no entanto, exorta a que, ao lado do culto litúrgico, se promovam outras formas de piedade, sobretudo aquelas que têm sido recomendadas pelo Magistério (LG 67). Como é bem conhecido, a veneração dos fiéis para com a Mãe de Deus tem revestido, de fato, formas multíplices, de acordo com as circunstâncias de lugar e de tempo, com a diversa sensibilidade dos povos e com as suas diferentes tradições culturais. Disso resulta que, sujeitas ao desgaste do tempo, essas formas em que se expressa a piedade se apresentem necessitadas de renovação, que dê azo a nelas serem substituídos os elementos caducos, a serem valorizados os perenes, e a serem incorporados os dados doutrinais adquiridos pela reflexão teológica e propostos pelo Magistério eclesiástico.

Ora, isto põe em evidência a necessidade de as Conferências episcopais, as Igrejas locais, as famílias religiosas e as comunidades de fiéis favorecerem uma genuína atividade criadora e procederem, simultaneamente, a uma diligente revisão dos exercícios de piedade para com a Virgem Santíssima. Desejaríamos, entretanto, que tal revisão se processasse no respeito pela sã tradição e com abertura para receber as legítimas instâncias dos homens do nosso tempo. Por conseguinte, parece-nos oportuno, veneráveis Irmãos, passar a indicar-vos alguns princípios segundo os quais importa agir neste campo.


A. Nota trinitária, cristológica e eclesial no culto da Virgem Maria

25. É da máxima conveniência, antes de mais nada, que os exercícios de piedade para com a Virgem Maria exprimam, de maneira clara, a característica trinitária e cristológica que lhes é intrínseca e essencial. O culto cristão, de fato, é por sua natureza culto ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, ou, conforme se expressa a Liturgia, ao Pai por Cristo no Espírito. Nesta perspectiva, torna-se ele extensivo, legitimamente, se bem que de maneira substancialmente diversa, em primeiro lugar e de modo singular, à Mãe do Senhor, e depois aos Santos, nos quais a Igreja proclama o Mistério Pascal, por isso mesmo que eles sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados (SC 104).

Na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d'Ele: foi em vista d'Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos. A genuína piedade cristã, certamente, nunca deixou de pôr em realce essa ligação indissolúvel e a essencial referência da Virgem Maria ao divino Salvador (LG 66). Parece-nos, contudo, sobremaneira conforme com uma certa linha espiritual seguida na nossa época, dominada e absorvida pela "questão de Cristo", (44) que nas expressões do culto à Virgem Maria se dê um relevo especial ao aspecto cristológico e se envidem esforços no sentido de elas refletirem o plano de Deus, o qual preestabeleceu "com um só e mesmo decreto a origem de Maria e da Encarnação da divina Sapiência". (45) Isto concorrerá, sem dúvida, para tornar mais sólida a piedade para com a Mãe de Jesus e fazer dela um instrumento eficaz para que alcancemos todos "o pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Homem perfeito, a medida da plena estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4,13). Por outro lado, contribuirá isso também para aumentar o culto devido ao mesmo Cristo, porque, segundo o sentir perene da Igreja, reforçado autorizadamente nos nossos dias (LG 66), "é referido ao Senhor aquilo com que se procura agradar a Serva; desse modo, redunda em prol do Filho aquilo mesmo que é devido à Mãe... De tal sorte, transfere-se para o Rei aquela honra que, em humilde tributo, se presta à Rainha".(46)

26. Depois de assim aludirmos à orientação cristológica do culto a Virgem Santíssima, parece-nos útil, em seguida, fazer aqui uma chamada à atenção para a oportunidade de se dar, nesse mesmo culto, o adequado realce a outro dos dados essenciais da fé: a pessoa e a obra do Espírito Santo.

A reflexão teológica e a Liturgia têm vindo a salientar, de fato, que a intervenção santificadora do Espírito no caso da Virgem de Nazaré foi um momento culminante da sua ação na história de Salvação. Assim, por exemplo, alguns Santos Padres e escritores eclesiásticos atribuíram à obra do Espírito a santidade original de Maria, por ele "como que plasmada e tornada uma nova criatura".(47) E, refletindo, depois, sobre os textos evangélicos: "Virá sobre ti o Espírito Santo e a potência do Altíssimo te recobrirá" (Lc 1,35), e "Maria... achou-se que tinha concebido por obra do Espírito Santo"; (...) "é obra do Espírito Santo o que nela se gerou" (Mt 1,18.20), descobriram eles em tal intervenção do Espírito uma ação que consagrou e tornou fecunda a virgindade de Maria (48) e a transformou em Palácio do Rei ou Tálamo do Verbo, (49) em Templo ou Tabernáculo do Senhor (50) e em Arca da Aliança ou da Santificação(51) títulos ricos de ressonâncias bíblicas. E, ao aprofundarem mais o mistério da Encarnação, viram na misteriosa relação Espírito Santo-Maria um aspecto esponsal, poeticamente descrito por Prudêncio, nestes termos: "a Virgem não-casada desposa o Espírito";(52) e chamaram-lhe, ainda, Santuário do Espírito Santo (53) expressão que frisa bem o caráter sagrado da Virgem Maria, que se torna habitação permanente do mesmo Espírito de Deus. Depois, penetrando mais na doutrina do Paráclito, perceberam que d'Ele, como de uma fonte, brotou a plenitude de graça (cf. Lc 1,28) e a abundância dos dons que a exornavam.

Ao Espírito Santo, por conseguinte, atribuíam a fé, a esperança e a caridade que animaram o coração da Virgem Santíssima, bem como a força que manteve a sua adesão à vontade de Deus e o vigor em que se apoiou a sua "compaixão" aos pés da Cruz (54) Anotaram também no cântico profético de Maria (cf. Lc 1,46-55) um particular influxo daquele mesmo Espírito que havia falado pela boca dos profetas.(55) E, ao considerarem, enfim a presença da Mãe de Jesus no Cenáculo, onde o Espírito desceu sobre a Igreja nascente (cf: At 1,12-14;2,1-4), enriqueceram com novos desenvolvimentos o tema antigo Maria-Igreja.(56) Mas, sobretudo, recorreram à intercessão da Virgem Santíssima para obter do Espírito a capacidade de gerarem Cristo na própria alma, como o atesta S. Ildefonso numa oração, que surpreende pela doutrina e pelo vigor suplicante: "Rogo-te, sim, rogo-te, Virgem Santa, que eu obtenha Jesus daquele Espírito, do qual tu mesma gerastes Jesus! Que a minha alma receba Jesus por esse mesmo Espírito, por quem a tua carne concebeu Jesus! (...) Que eu ame Jesus naquele mesmo Espírito, no qual tu o adoras como Senhor e o contemplas como Filho!".(57).

27. Ouve-se afirmar, algumas vezes, que muitos textos de piedade moderna não refletem suficientemente toda a doutrina acerca do Espírito Santo. Cabe aos estudiosos verificar a justeza, ou não, dessa afirmação e aquilatar o seu alcance; a nós compete-nos exortar a todos, principalmente aos pastores e teólogos, a procurarem aprofundar a reflexão sobre a obra do Espírito na história da Salvação e a envidarem esforços no sentido de os textos de piedade cristã darem o devido relevo a sua ação vivificante. Desse aprofundamento emergirá, em particular, a misteriosa relação entre o Espírito de Deus e a Virgem de Nazaré e a ação de ambos sobre a Igreja: e dos dados da fé meditados mais profundamente derivar-se-á uma piedade vivida de maneira mais intensa.

28. É necessário, pois, que os exercícios de piedade com que os fiéis exprimem a sua veneração para com a Mãe do Senhor, manifestem de modo mais claro o lugar que ela ocupa na Igreja: "depois de Cristo, o mais alto e o mais perto de nós"; (58) um lugar que nos edifícios cultuais do Rito bizantino tem sido expresso plasticamente de tal maneira que, na própria disposição das estruturas arquitetônicas e dos elementos iconográficos, na porta central da iconóstase, a representação da Anunciação a Maria, e na abside, e da "Theotocos" gloriosa, resulta manifesto que, a partir do "fiat" da humilde Serva do Senhor, a humanidade inicia o retorno a Deus e que na glória da Toda-santa vê a meta da sua caminhada. Assim o simbolismo com que o edifício da igreja exprime o lugar de Maria no mistério da Igreja encerra uma indicação fecunda e constitui um auspício para que, por toda a parte, as várias formas de veneração à bem-aventurada Virgem Maria se abram para perspectivas eclesiais.

A chamada à atenção para os conceitos fundamentais expostos pelo Concílio Vaticano II, sobre a natureza da Igreja, "Família de Deus", "Povo de Deus", "Reino de Deus", "Corpo Místico de Cristo" (LG 6, 7-8, 9-17), permitirá, na verdade, aos fiéis, reconhecerem mais prontamente qual a missão de Maria no mistério da mesma Igreja e qual o seu eminente lugar na Comunhão dos Santos. Além disto, far-lhes-á sentir mais intensamente a fraternidade que une entre si todos os fiéis: porque filhos da Virgem Maria, "para cuja geração e educação (espiritual) ela coopera com amor de mãe" (LG 66), e porque filhos da Igreja, também, visto que "do seu parto nascemos, com o seu leite somos alimentados, e pelo seu Espírito somos vivificados". (59) Ambas concorrem, na verdade, para gerar o Corpo Místico de Cristo; mas "se bem que uma e outra Mãe de Cristo, nenhuma delas sem a outra dá à luz todo (o Corpo)".(60) Por fim, facultar-lhes-á perceber mais distintamente que a ação da Igreja no mundo é como que um prolongamento da solicitude de Maria: aquele amor operoso de que a Virgem Santíssima dá mostras, realmente, em Nazaré, em casa de Isabel, em Caná e sobre o Gólgota, todos estes, momentos "salvíficos" de vasto alcance eclesial, encontra a sua continuidade na preocupação materna da Igreja para que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade (cf.1Tm 2,4), nos seus cuidados para com os humildes, os pobres e os fracos, e na sua aplicação constante em favor da paz e da concórdia social, no seu prodigalizar-se, enfim, para que todos os homens tenham parte na Salvação que a morte de Cristo lhes mereceu.

Deste modo, o amor pela Igreja traduzir-se-á em amor para com Maria, e vice-versa, pois uma não pode subsistir sem a outra, como perspicazmente observava S. Cromácio de Aquiléia: "Reuniu-se a Igreja na parte superior (do cenáculo), com Maria que foi a Mãe de Jesus e com os irmãos d'Ele. Não se pode, portanto, falar de Igreja senão quando estiver aí Maria, Mãe do Senhor, com os irmãos d'Ele".(61) A concluir, insistimos ainda na necessidade de que a veneração dirigida à bem-aventurada Virgem Maria torne explícito o seu intrínseco conteúdo eclesiológico: isto equivale a dizer, lançar mão de uma força capaz de renovar, salutarmente, formas e textos.


B. Algumas orientações, de ordem bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica, para o culto à Virgem Maria

29. As indicações dadas até aqui, que fluem da consideração das relações da Virgem Maria com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e com a Igreja, queremos acrescentar agora, atendo-nos sempre às linhas do ensino conciliar (LG 66-69), algumas orientações, de ordem bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica, a ter presentes no rever ou criar exercícios e práticas de piedade, para tornar mais vivo e mais sentido o vínculo que nos une à Mãe de Cristo e Mãe nossa, na Comunhão dos Santos.

30. A necessidade de um cunho bíblico em toda e qualquer forma de culto é hoje algo sentida, como um postulado geral da piedade cristã. O progresso dos estudos bíblicos, a crescente difusão das Sagradas Escrituras e, sobretudo, o exemplo da tradição e a íntima moção do Espírito, orientam os cristãos do nosso tempo para servir-se cada dia mais da Bíblia, qual livro fundamental de oração e para tirar dela genuína inspiração e modelos insuperáveis. O culto à bem-aventurada Virgem Maria não pode ser eximido a esta orientação geral da piedade cristã (DV 25); antes pelo contrário, deve ele inspirar-se particularmente em tal orientação, para adquirir novo vigor e dela tirar seguro proveito.

A Bíblia, ao apresentar de modo admirável o desígnio de Deus relativamente à salvação dos homens, acha-se toda ela impregnada do mistério do Salvador e encerra também, sem dúvida, desde o Gênesis até ao Apocalipse, referências àquela que foi mãe e cooperadora do mesmo Salvador. Não desejaríamos, no entanto, que o cunho bíblico se limitasse a um uso diligente de textos e símbolos sapientemente tirados das mesmas Sagradas Escrituras; essa característica comporta algo mais: requer, efetivamente, que as fórmulas de oração e os textos destinados ao canto assumam os termos e a inspiração da Bíblia; e exige, sobretudo, que o culto à Virgem Santíssima seja permeado pelos grandes temas da mensagem cristã, a fim de que os féis, ao mesmo tempo que veneram aquela que é a Sede da Sabedoria, sejam também eles iluminados pela luz da Palavra divina e levados a agir segundo os ditames do Verbo encarnado.

31. Acerca da veneração que a Igreja presta à Mãe de Deus, na celebração da sagrada Liturgia, já falamos anteriormente. Mas agora, ao começar a discorrer sobre outras formas de culto e sobre os critérios em que elas hão de inspirar-se, não podemos deixar de recordar a norma da Constituição Sacrosanctum Concilium, a qual, ao mesmo tempo que recomenda vivamente os exercícios de piedade do povo cristão, acrescenta: "...Importa, porém, ordenar essas práticas de piedade tendo em conta os tempos litúrgicos, de maneira que se harmonizem com a sagrada Liturgia, de certo modo derivem dela, e a ela, que por sua natureza lhes é muito superior, conduzam o povo cristão" (SC 13).

Norma sapiente, esta, e simultaneamente clara; a sua aplicação prática, no entanto, não se apresenta fácil, sobretudo no campo do culto à Virgem Santíssima, tão variado nas suas expressões formais. Tal aplicação exige, na realidade, da parte dos responsáveis pelas Comunidades locais, esforço, tato pastoral e constância; e da parte dos fiéis, prontidão para aceitar orientações e propostas que, promanando embora da genuína natureza do culto cristão, muitas vezes comportam a mudança de usos inveterados, nos quais aquela natureza, de algum modo, se havia obscurecido.

Aqui neste ponto, quereríamos fazer alusão a duas atitudes que poderiam, eventualmente, tornar vã, na prática pastoral, a sobredita norma do Concílio Vaticano II: em primeiro lugar, a atitude de alguns a quem está confiada a cura de almas, que, aprioristicamente, desprezam os exercícios de piedade, se bem que recomendados pelo Magistério quando feitos na forma devida; e por isso, transcuram-nos e criam um vazio que não providenciam a preencher de nenhuma maneira. Ora, estes que assim procedem esquecem que o Concílio diz que se harmonizem os exercícios de piedade com a Liturgia e não que se suprimam simplesmente. Em segundo lugar, lembramos a atitude daqueles que, à margem de um são critério litúrgico e pastoral, misturam ao mesmo tempo exercícios piedosos e atos litúrgicos, em celebrações híbridas. Acontece, algumas vezes, que na própria celebração do Sacrifício Eucarístico são inseridos elementos que fazem parte de novenas ou de outras práticas piedosas, com o perigo de o Memorial do Senhor não constituir o momento culminante do encontro da comunidade cristã, mas ser como que a ocasião para algumas práticas devocionais. Aqueles que assim procedem quereríamos recordar que a norma conciliar prescreve que se harmonizem os piedosos exercícios com a Liturgia e não que se confundam com ela. Uma ação pastoral esclarecida, pois, deve, por um lado, saber distinguir e acentuar a natureza própria dos atos litúrgicos; e por outro lado, saber valorizar os piedosos exercícios, para os adaptar às necessidades de cada uma das comunidades eclesiais e torná-los preciosos auxiliares da mesma Liturgia.

32. Em virtude do seu caráter eclesial, no culto à Virgem Maria refletem-se as preocupações da própria Igreja, entre as quais, nos nossos dias, se salienta o anseio pela recomposição da unidade dos cristãos. A piedade para com a Mãe do Senhor torna-se, deste modo, sensível aos anelos e aos escopos do Movimento ecumênico, quer dizer, adquire também ela um caráter ecumênico. E isso, por vários motivos.

Antes de mais nada, porque os fiéis católicos se unem aos irmãos das Igrejas ortodoxas, nas quais a devoção à bem-aventurada Virgem Maria se reveste de formas de elevado lirismo e de doutrina profunda, ao venerar, com particular amor, a "Theotocos", e ao aclamá-la como "Esperança dos cristãos"; (62) se unem aos Anglicanos, cujos teólogos clássicos já colocavam em evidência a sólida base escriturística do culto a Mãe de Nosso Senhor, e cujos teólogos contemporâneos frisam ainda mais a importância do lugar que Maria ocupa na vida cristã; se unem, enfim, aos irmãos das Igrejas da reforma, entre os quais floresce vigorosamente o amor pelas Sagradas Escrituras, que os leva a glorificarem a Deus com as próprias palavras da Virgem (cf. Lc 1,46-55).

Depois, porque a piedade para com a Mãe de Cristo e dos cristãos é, para os católicos, ocasião natural e freqüente de imploração, para que ela interceda junto do Filho pela união de todos os batizados, num só Povo de Deus (LG 69). E ainda, porque é desejo da Igreja católica que nesse culto, sem que lhe seja atenuado o caráter singular (LG 66; SC 103), sejam evitados, com todo o cuidado, quaisquer exageros, que possam induzir em erro os outros irmãos cristãos, acerca da verdadeira doutrina da Igreja católica (LG 67); e sejam banidas quaisquer manifestações cultuais contrárias à reta praxe católica. Por  fim, sendo conatural ao genuíno culto da bem-aventurada Virgem Maria que, "ao honrar a Mãe (...) melhor se conheça, ame e glorifique o Filho" (LG 56), ele torna-se caminho para Cristo, fonte e centro da comunhão eclesiástica, na qual todos aqueles que confessam abertamente que Ele é Deus e Senhor, Salvador e único Mediador (cf. 1Tm 2,5), são chamados a serem uma só coisa entre si, com Ele e com o Pai, na unidade do Espírito Santo (63).

33. Estamos conscientes de que existem não leves discordâncias entre o pensamento de muitos irmãos de outras Igrejas e comunidades eclesiais, e a doutrina católica "acerca (...) da função de Maria na obra da Salvação" (UR 20); e, por conseqüência, acerca do culto a prestar-lhe. Todavia, porque a mesma potência do Altíssimo que cobriu com a sua sombra a Virgem de Nazaré (cf. Lc 1,35) age também no hodierno Movimento ecumênico e o fecunda, desejamos exprimir a nossa confiança em que a veneração da humilde Serva do Senhor, na qual o Onipotente fez grandes coisas (cf. Lc 1,49), se há de tornar, se bem que lentamente, não já um obstáculo, mas sim um trâmite e ponto de encontro para a união de todos os crentes em Cristo.

Sentimos alegria, de fato, ao verificar que uma melhor compreensão do lugar de Maria no mistério de Cristo e da Igreja, também da parte dos irmãos separados, torna mais desimpedido o caminhar para o encontro. E como em Caná a Virgem Santíssima, com a sua intervenção, obteve que Jesus realizasse o primeiro dos seus milagres (cf. Jo 2,1-12), assim também na nossa época ela poderá, com a sua intercessão, propiciar o advento da hora em que os discípulos de Cristo reencontrem a plena comunhão na fé. E esta nossa esperança é corroborada pela observação que já fazia o nosso predecessor Leão XIII: a causa da união dos cristãos é algo que "faz parte especificamente da sua (de Maria) função da maternidade espiritual. Na verdade, aqueles que são de Cristo, Maria não os gerou nem poderia gerar, senão numa única fé e num único amor: porventura "estará Cristo dividido" (1Cor 1,13)? E assim, nós devemos, todos conjuntamente, viver da vida de Cristo, afim de, num só e mesmo corpo, "produzirmos frutos para Deus" (Rom 7,4)".(64)

34. No culto à Santíssima Virgem devem ser tidas em atenta consideração também as aquisições seguras e comprovadas das ciências humanas; isso concorrerá, efetivamente, para que seja eliminada uma das causas de perturbação que se nota nesse mesmo campo do culto à Mãe do Senhor; quer dizer, aquele desconcerto entre certos dados deste culto e as hodiernas concepções antropológicas e a realidade psicossociológica, profundamente mudada, em que os homens do nosso tempo vivem e operam.

Observa-se, na realidade, que é difícil enquadrar a imagem da Virgem Maria conforme resulta de certa literatura devocional, nas condições de vida da sociedade contemporânea, e em particular nas da mulher. E isso, quer a consideremos no ambiente doméstico, onde tanto as leis como a evolução dos costumes tendem justamente para lhe reconhecer a igualdade e a co-responsabilidade com o homem, na direção da vida familiar; quer a consideremos no campo político, onde ela conquistou, em muitos Países, um poder de intervenção na coisa pública, a par do homem; quer a consideremos, ainda, no campo social, onde ela desenvolve a sua atividade, nos mais variados setores operativos, deixando cada dia mais o restrito ambiente do lar; quer a consideremos, enfim, no campo cultural, onde lhe são proporcionadas possibilidades novas de pesquisa científica e de afirmação intelectual.

Ora, daqui segue-se logicamente, para alguns, uma certa desafeição para com o culto à Virgem Santíssima e uma certa dificuldade em tomar Maria de Nazaré como modelo, porque os horizontes da sua vida, afirma-se, resultam restritos, em confronto com as vastas zonas de atividade em que a pessoa humana contemporânea é chamada a atuar. A este propósito, ao mesmo tempo que exortamos os teólogos, os responsáveis pelas Comunidades cristãs e os mesmos féis a dedicarem a devida atenção a tais problemas, pareceu-nos útil dar uma contribuição, nós próprio também, para a sua solução, apresentando em seguida algumas observações.

35. Antes de mais nada, a Virgem Maria foi sempre proposta pela Igreja à imitação dos fiéis, não exatamente pelo tipo de vida que ela levou ou, menos ainda, por causa do ambiente sócio-cultural em que se desenrolou a sua existência, hoje superado quase por toda a parte; mas sim, porque, nas condições concretas da sua vida, ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38); porque soube acolher a sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; e porque, em suma, ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo, o que, naturalmente, tem um valor exemplar universal e permanente.

36. Em segundo lugar, quereríamos anotar que as dificuldades acima aludidas estão em íntima conexão com alguns traços da imagem popular e literária de Maria, e não com a sua imagem evangélica, nem com os dados doutrinais, que foram sendo precisados ao longo de lento e sério trabalho de explicitação da Palavra revelada. Deve considerar-se coisa normal, aliás, que as gerações cristãs que se sucederam, em quadros sócio-culturais diversos, ao contemplarem a figura e a missão de Maria, qual nova Mulher e perfeita cristã, que reuniu em si as situações mais características da vida feminina, porque Virgem, Esposa e Mãe, tenham visto na Mãe de Jesus o tipo eminente da condição feminina e o exemplar limpidíssimo da vida evangélica, e tenham expresso estes seus sentimentos segundo as categorias e as representações próprias da sua época.

A Igreja, quando considera a longa história da piedade mariana, alegra-se, ao verificar a continuidade do fato cultual; mas não se liga aos esquemas representativos das várias épocas culturais, nem às particulares concepções antropológicas que lhes estão subjacentes; ademais, compreende bem que algumas expressões de tal culto, perfeitamente válidas em si mesmas, são menos adaptadas aos homens que pertencem a épocas e civilizações diversas.

37. Desejamos, por fim, acentuar que a nossa época, não diversamente das precedentes, é chamada a aquilatar o próprio conhecimento da realidade com a palavra de Deus e, para ater-nos ao assunto de que estamos a tratar, a confrontar as suas concepções antropológicas e os problemas que daí derivam com a figura da Virgem Maria, conforme ela está proposta no Evangelho. Desse modo, a leitura das divinas Escrituras, feita sob o influxo do Espírito Santo e tendo presentes as aquisições das ciências humanas e as várias situações do mundo contemporâneo, levará a descobrir que Maria pode bem ser tomada como modelo naquilo por que anelam os homens do nosso tempo.

Assim, para dar alguns exemplos: a mulher contemporânea, desejosa de participar com poder de decisão nas opções da comunidade, contemplará com íntima alegria a Virgem Santíssima, que, assumida para o diálogo com Deus, dá o seu consentimento ativo e responsável (LG 56), não para a solução dum problema contingente, mas sim da "obra dos séculos" como foi designada com justeza a Encarnação do Verbo;(65) dar-se-á conta de que a escolha do estado virginal por parte de Maria, que no desígnio de Deus a dispunha para o mistério da Encarnação, não foi um ato de fechar-se a qualquer dos valores do estado matrimonial, mas constituiu uma opção corajosa, feita para se consagrar totalmente ao amor de Deus; verificará, com grata surpresa, que Maria de Nazaré, apesar de absolutamente abandonada à vontade do Senhor, longe de ser uma mulher passivamente submissa ou de uma religiosidade alienante, foi, sim, uma mulher que não duvidou em armar que Deus é vingador dos humildes e dos oprimidos e derruba dos seus tronos os poderosos do mundo (cf. Lc 1,5153); e reconhecerá em Maria, que é "a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor" (LG 55), uma mulher forte, que conheceu de perto a pobreza e o sofrimento, a fuga e o exílio (cf. Mt 2,13-23), situações, estas, que não podem escapar à atenção de quem quiser secundar, com Espírito evangélico, as energias libertadoras do homem e da sociedade; e não lhe aparecerá Maria, ainda, como uma mãe ciosamente voltada só para o próprio Filho divino, mas sim como aquela Mulher que, com a sua ação, favoreceu a fé da comunidade apostólica, em Cristo (cf. Jo 2,1-12), e cuja função materna se dilatou, vindo a assumir no Calvário dimensões universais.(66)

São exemplos, como dizíamos. Deles transparece claramente, no entanto, que a figura da Virgem Santíssima não desilude algumas aspirações profundas dos homens do nosso tempo, e até lhes oferece o modelo acabado do discípulo do Senhor: obreiro da cidade terrena e temporal, e, simultaneamente, peregrino solerte também, em direção à cidade celeste e eterna; promotor da justiça que liberta o oprimido e da caridade que socorre o necessitado, mas, sobretudo, testemunha operosa do amor, que educa Cristo nos corações.

38. Depois de haver apresentado, assim, estas diretrizes, em ordem a favorecer o desenvolvimento harmonioso do culto à Mãe do Senhor, julgamos oportuno chamar a atenção para algumas atitudes cultuais errôneas.

O Concílio Vaticano II já denunciou, autorizadamente, tanto o exagero de conteúdos ou de formas, que vai até ao ponto de falsear a doutrina, como a mesquinhez de mente que chega a obscurecer a figura e a missão de Maria; de igual modo alguns desvios cultuais: a vã credulidade, que a uma aplicação séria substitui o dar-se facilmente a práticas apenas exteriores; o estéril e passageiro impulso do sentimento, tão alheio ao estilo evangélico, que exige esforço perseverante e efetivo (LG 67). Nós reiteramos a deploração destas coisas: não são formas em harmonia com a fé católica e, por conseguinte, não devem subsistir no culto católico.

A defesa vigilante contra estes erros e desvios fará com que se torne mais vigoroso e genuíno o culto a santíssima Virgem: sólido nos seus fundamentos, pelo que, nele, o estudo das fontes reveladas e a atenção aos documentos do Magistério hão de prevalecer sobre a descomedida busca da novidade e de fatos extraordinários; objetivo no seu enquadramento histórico, pelo que deverá ser banido dele tudo aquilo que é manifestamente lendário ou falso; adequado ao conteúdo doutrinal, de onde a necessidade de evitar apresentações unilaterais da figura de Maria, que, por insistirem desmesuradamente num determinado elemento, comprometem o conjunto da imagem evangélica; e, enfim, límpido nas suas motivações, pelo que será mantido longe do santuário, com diligente cuidado, todo e qualquer interesse mesquinho.

39. Por fim, se porventura disso houvesse necessidade, quereríamos reiterar a insistência nisto: a finalidade última do culto à bem-aventurada Virgem Maria é glorificar a Deus e levar os cristãos a aplicarem-se numa vida absolutamente conforme a sua vontade. Os filhos da Igreja, na verdade, quando, juntando as suas vozes a da mulher anônima do Evangelho, enaltecem a Mãe de Jesus ao exclamarem, dirigindo-se ao mesmo Jesus, "Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!" (Lc 11,27), serão induzidos a considerarem a grave resposta do divino Mestre: "Felizes antes os que ouvem a palavra de Deus e a observam!" (Lc 11,28). E esta resposta, se por um lado redunda num patente louvor a Santíssima Virgem, como a interpretaram alguns Santos Padres (67) e o Concílio Vaticano II o confirmou (LG 58), por outro lado, ressoa para nós também como uma advertência a vivermos os mandamentos de Deus, e é como que o eco de outras admoestações do divino Salvador: "Nem todo o que me diz: `Senhor! Senhor!' entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7,21); e, "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos ordenei" (Jo 15,14).


Ad Maiorem Dei Gloriam
Santo Rosário
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